Eu quero ser como você. Quero sua delicadeza, suas mãos cansadas e seu desespero ao arrumar as coisas pequenas. Quero ter seus cabelos que o vento não consegue alcançar por inteiro. Quero seus pés que carregam o chão sujo da opressão, quero te proteger da opressão de viver. Quero teus dedos que costuraram meu sonhos mais ternos. Quero teus joelhos e pulsos. Quero sentir teu cansaço de ser mãe e pai, ausência e presença. Quero tua fadiga e teus olhos. Quero morar na tua epiderme, fazer chover nas tuas feridas, quero abrigar tua alma ligeira.
O silêncio se projeta em meu olhar como a paisagem num retrato velho e esquecido, levemente caído na sala de jantar, esperando a poeira. O que há em mim é sobretudo o silêncio. Sou a fotografia do silêncio, a cena, o gesto.