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TURVO

Não consigo mais escrever. Nem o "escrever" eu tenho mais. Esgotaram todos os lápis e papéis interiores, vítimas de uma borracha delirante e paranoica. O sem sentido nem está mais cabendo, nem o final desse texto cabe. Minha viagem na terra ocorre igual essas palavras perdidas, sem rumo, pulando linhas, papel turvo. Metade papel, inteira turva.
como você pode dizer que não é real se até meus poros reagem quando te leio? te desejar dói todos os dias, em todos os becos e ângulos. você é o meu melhor ângulo. minha solidão encontra a tua todas as noites. te amo de longe, pelo mar e chuva, chuva que escorre linda pelo corpo. tu és minha solidão, és a chuva que vaga em meu eco. tudo é sobre você. você me é e eu sou toda você.

TUMULTO

louco mundo insano. giratório, ruas girando, mentes gastas, mutiladas, em uma rua retalhada. l otada.

POEMA SUJO

quero o mundo inteiro assim: desajustado. quero o mundo sem pausas nem interrupções de comerciais, porque todo ligeiro é bonito, olhos ligeiros, caminhar desesperado, vida desesperada, quero só para mim. quero 20 desconhecidos ao mesmo tempo, quero todas as inutilidades juntas. o nada me atrai. quero tudo, sujo, errado, mal vestido, sem começo, nem meio, sem meias nem dedos. n u ao inteiro.
real, imaginário. te fiz real para ecoar em minha solidão. e co inexistente.
Perdoa o meu amor desajustado  

DANÇA AMARELA

acordei hoje com vontade de dançar. vontade de brincar com uma criança de amarelinha: 123 CÉU. acordei com um impulso de gritar bem alto "QUALQUER COISA". gritar porque o silêncio é constrangedor. gritar porque amanhã não é segunda e hoje ainda é sexta. acordei com vontade de ser abduzida pra outro planeta, outra cidade, outro quintal, outra galáxia. o u quem sabe só pra tua rua.
Repara bem na minha dor.  
Somos poeira em um vendaval de paranoia .

BAGUNÇA

eu gosto é da bagunça. da confusão de paixões deformes, da algazarra aleatória das estrelas, dos gritos sonoros de uma guitarra, do beijo vagabundo de uma noite rala. eu gosto é dessa euforia desarranjada.

NÃO EXISTE BELEZA

as crianças já não ralam seus joelhos com um volta de bicicleta. vivo um apocalipse robótico em plena festa verde e amarela. o cheiro da minha cidade me dá náuseas, as flores do meu jardim foram desflorizadas, as novelas me causam terror, o olhar de minha mãe já não mais me conforta, as cartas já se foram e as músicas já não tem mais melodia. não existe beleza a ser achada. e stou à deriva de um beco sem saídas.
O caos é minha janta.
o brasil morre todos os dias. acordo de luto por aquela formiga que esmaguei no caminho para a escola. de luto por aquele aluno que não captou o verbo "saber" na aula de português, porque curtiu o status de um brasil drogado e bêbado que passou a noite na farra. um minuto de silêncio a todos os mendigos e catadores de panfletos que farão disso um cobertor para sexta a noite. o brasil morre todos os dias.
não acredito em mim. não vejo beleza em qualquer canto do meu canto, e isso me dói. gosto quando o sol queima minha pele e deixa revelar as imperfeições em meu rosto, na alma, nariz e boca. até me agrada a inutilidade em que me coloco, esse nada é misterioso. sou um beco encharcado de sujeira. sou meu próprio abismo.

sou multidão

acho lindo a forma como a multidão soa. o bater de mãos e ombros, a forma como a moça desembaraça o cabelo, o olhar do rapaz para as pernas dessa mesma moça, a vontade da criança em engolir o mundo, o "bom dia" do motorista cansado de tanta cara, o senhor engravatado com a vida no relógio, o olhar certeiro cheio de quartas intenções, segundas, terceiras, quartas, quintas. sou multidão.
me demito. me demito desta vida costumeira que carrego em meus braços, dos fins de tarde solitários em que ninguém põe os pés fora de casa. me demito da comercialização que encontro  em outdoors e em pontos de ônibus cansados. me demito. assinei um contrato com um velho careca chamado mundo. Peço demissão da catástrofe em que me encontro. eu me demito. me demito porque meu escritório psicológico está lotado de arquivos pendentes e a moça do balcão ao lado continua em sua viagem espacial. quero fartura pra vida inteira não quero flores no balcão nem uma sala sem janelas. levo comigo todos os bilhetes da geladeira. me demito. só  me resta o sol.
gosto da ferocidade com que a chuva bate na janela suada de mãos. da rapidez do chão e dos sovacos pingando mar. de tanta música interna num ônibus só. amo a vivacidade de pupilas desconhecidas nas minhas. adoro esse pessoal que eu não conheço e os conheço há uma eternidade.