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para beatriz

hoje choveu, beatriz. e eu só consigo lembrar de tua chuva morna e quente deslizando pela tua face tão distante de meu toque, apesar de estarmos 2 centímetros perto uma da outra. mas você nunca esteve presente. "o presente é só questão de se deixar sonhar e imaginar", você falou. mas o sonhar é muito distante e o que você nunca quis entender é que o teu estar presente em mim é incurável. tudo o que resta de ti são aqueles brincos enferrujados que você nunca ousava largar e que me furam as lembranças até a última lágrima de saudade. são essas lágrimas que tem o poder de amenizar a seca que paira sob meu sertão carnal e que me afogam o adeus teu. ana.

lonely

essa lágrima que cai, quente e distante, escorre com o tempo, ela pesa falta, escassa do real e concreto, do intenso. se derrama pelas coisas efêmeras que brilham muito e apagam cedo. o pesar das superficialidades se desdobra numa lágrima no rosto do agora. e o agora amanhece só.

poeira estelar

meu coração aterrissa nos desconhecidos sem temer catástrofes colaterais, porque o que há em mim é sobretudo intensidade. sem meios termos e nem meias verdades eu me entrego na invenção do acaso. me perco no universo alheio e vou-me embora sem deixar rastros cósmicos.

a dor assalariada

essa dor que a gente sente não aparece na TV, neutralizada pela indiferença,  ela nos abate como uma amiga. essa dor que a gente sente inventa a gente. a gente não aparece na TV, mas nossa dor estampa os jornais todos os dias. a nossa dor não é propaganda, ela é real e tem pés. ela anda pela estrada da utopia e se faz presente no salário do fim do mês. a nossa dor faz fila pra comprar pão na padaria.
a vida é uma lágrima caída no rosto da utopia.
eu escrevo como quem pede socorro.
o olho é o espelho da calma.
os dias fogem da rotina a rotina nos devora.

20 anos de amor

eu e você fomos amor à primeira vista, nossa conexão é interligada entre as estrelas e a eternidade e tudo o que nos rodeia é explosão de intensidade e amanhecer, já que a luz de teu olhar clareia a obscuridade que a solidão faz vestir em minhas noites. olha, eu ainda ando pelas ruas como quem procura algo que não existe, como um desesperado que não sabe mais viver, mas teu sorriso e teu respirar me faz achar as múltiplas faces que moram indiferentes dentro do espelho quebrado e corroído pela pressão que me forço. eu olho tua alma como quem admira o céu, adentro teus sonhos como quem se afoga num romance e grito pelo teu amor como quem pede socorro. és a cura para minha doença e és a inspiração que salva o poeta à beira da morte.
meu amor é urgente e canibal.
olhar afiado que atravessa minha pupila e penetra meus instintos.

3h10

na noite tudo é verdadeiro e eterno. é quando os bichos cantam a sinfonia pros insones e os bares esperam poetas falidos em busca de esclarecimento em goles desesperados de cerveja. a noite é uma grande festa, onde os deuses se embebedam e gozam sob um céu estrelado e negro.
a inspiração chega tão de repente que mal pode-se pensar, o que resta a fazer é criá-la e dar a devida forma, antes que fuja de seus dedos em busca de outro sonhador.
os dias parecem escorrer pelo meu corpo e eu ainda procuro encontrar uma forma de decifrar as tuas múltiplas faces escondidas no teu olhar camuflado em          ansiedade e medo. a imensidão dos desejos me levam a pertubação de não saber o que fazer das tuas dúvidas - minha insegurança só serve para prender ainda mais os nós que apertam e apertam minha angústia, espremendo gotas de sangue pulmonar. eu guardo tua eternidade e derrubo meus muros para fazer caber em mim tua sensibilidade e tua matéria, descanso minhas mãos nas tuas buscando teus poros e teus segredos. quando percebo, já estou à deriva.
a poesia te agarra pelos punhos e devora tuas vísceras.

I'm killing myself

o meu corpo é uma prisão que me oprime todos os dias, é um moinho que corrói a minha epiderme, dilacerando a alma e o psicológico. diante do espelho quebrado eu me vejo em arranhões e cortes, espelho do meu eu que me dói em todos os membros e ângulos. eu não sei lidar com essa mudança fugaz, o que me faz cair no abismo de padrões superficiais que desgastam o meu lirismo e minha poesia interna. ao encarar esse horizonte no olhar, choro e grito: há um indivíduo que me pede ajuda e eu o dilacero com dez mil socos de mentiras.
você precisa entender o meu desastre.

cinema

interpretando o espetáculo da vida em roteiros líquidos e banais.

23/09

acontece que a pressão que eu crio em meu consciente causa uma explosão de culpa que eu não sei digerir por completo. nesses dias incólumes e ligeiros, ainda faz vagar o ar de incompletude existencial, atrelados à ansiedade de devorar os minutos e viver dentro de um relógio                 surreal e eterno, não sobrando tempo para o desperdício. no fim eu invento uma subjetividade encadeada num impulso emocional, me levando à contradição de não saber mais como raciocinar. eu engulo a loucura com medo do nada.

mais do que eu posso falar

desculpa a urgência e a culpa. desculpa o medo, o silêncio, as sombras e os muros. perdoa a pressão que carrego além da epiderme e perdoa a minha cratera pulmonar. eu só necessito de canibalismo sentimental e conforto.

física

dois corpos envoltos numa única alma explodindo em eletricidade. atrito poético.
a arte cria a existência.

00:46

porque tudo o que é sensível e belo faz despertar nas pessoas a fraqueza e o amor.  o mundo é um ambiente selvagem onde os animais são canibais da solidão.  o que sobra é a urgência pelos sentimentos, a ternura nos olhares passageiros e a esperança nos que se permitem ficar. 

neutra

entre o quente e o frio, existe a chama que reacende no olhar de quem se deixa criar.

01:02

escrevo eternidades em teus silêncios.

00:30

ouço o silêncio embutido no âmago do peito.
puro espanto no pranto do uivar. loba, frenética.
tudo depende do de repente.

ânsia

minha obsessão se fixou nos muros do teu eu interior e lá fez morada. teus olhos rasuraram as crateras que eu mesma criei e se deixou fazer e teu riso se propagou em meio a um beijo dissipado na fumaça. eu despejo minha solidão em ti de uma forma que não saberás o que fazer. é isso o que me inquieta.

acaso

teu silêncio fazendo resguardo em meus dias, meu lugar procurando um canto na tua poesia.
me veja além dos muros e crateras. me ouça além do grito.
as coisas mudam de uma forma banal

nota sobre E

quem me ouve falar de ti pensa até que és uma musa da sétima arte. eu te faço fotografias e te endeuso.
se me tocares, devora-me e decifra-me. devolva-me, porque eu já não estou mais aqui.
nos desfizemos naquele beijo, você se desfez e se foi. o que resta é sombra de gente urgente.
o desesperado é aquele que busca algo mais desesperado que a sua própria loucura?

a poesia fala

eu, caros leitores, sou faminta por audácia e ousadia, defronte de mim existem ânsia e desejos. eu sou a carne que o poeta insaciável procura para devorar. quando ouvem meu nome, não só causo encantamento nos ouvidos alheios, como perturbo a alma e o pensamento dos, se me permites dizer, tristes e desamparados. os tristes de que falo, são os engravatados que não perdem seu precioso tempo com tolices poéticas, ocupados demais ministrando seus belos cargos de gabinetes. eu estou aqui a falar, como a loucura fala nos devaneios de Erasmo. me ponho em teus olhos chegando até teu faro amistoso de poeta. quando eu finalmente, alcanço os que me desconhecem, eu os trato tão servilmente e amavelmente como os cães tratam seus respeitosos donos. os levo inspiração como o fotografia leva ao seu fotógrafo. o que é, os abraços voluptuosos e os beijos mais ardentes, senão poesia concentrando-se em corpos ardosos e urgentes? eu rodeio pelo mundo como o vento que faz rodopiar ...
domingo é dia de desabar.
de vez em nunca  nós temos um instante de realidade. de vez em breve  nós temos um lapso de desespero.
a solidão me deixou inteira(mente) perturbada. internamente desamparada. sentimentalmente desesperada.

ilusão

quero teu corpo, quero tua carne, quero teu fôlego, quero tua ânsia, quero tua boca, quero teus beijos, quero teu dormir, quero teu esperar, quero tua paciência, quero teu tomar banho, quero teu café da tarde, quero teu caminhar, quero teu descansar, quero tua fadiga, quero teus olhos, quero teu eu, quero teus eus. me faz te querer, me faz criar tua existência.

abstinência sentimental

é que eu estou cansada desses amores efêmeros, esses amores de vento. to cansada desses beijos que se vão e nunca mais voltam, do toque superficial e passageiro. é bonito, mas é triste. eu preciso de você que existe, você que é desconhecido, você que é distante de meu ser urgente, eu grito por essa urgência. me devore o quanto antes.
quando me olhar me olha inteira, me veja mais do que resquícios e efemeridades que tua mente cria. me descobre a ousadia, me vê poeta, porque sou mais que estampa. não me fale sobre o tempo ou sobre o dia, me fala sobre teu mistério. quando me olhar, me descubra em ti e se divaga.
eu gosto de ver a solidão se esvair, o tempo mudar, o corpo existir. criar uma existência. fluir.
quem sabe eu te encontre por acaso ou por desespero.
tudo é sensível aos olhos do artista.

ana,

eu não sei lidar. quero te conversar pela poesia, é minha única forma de chegar a ti. não sei lidar com a existência nem com meus poros. é tudo muito ligeiro. é tudo muito feroz e ardente. Viver arde. é que tua poesia prendeu a minha desde aquela vez que te vi recitar. mas eu fujo. desculpa a invasão. sou essa cena e não sei lidar. eu desconheço. vamos nos desconhecer.

elétrica

laranja, desconhecida, vulcânica, pequena, grandiosa, elétrica. és plural e poeta. tua escrita cerca os ares da cidade transbordando eletricidade com cara de poesia.
o que me dói é essa liberdade sendo prisioneira de tua opressão e de teu ego subversivo. me dói tua brutalidade, me dói o teu toque, me dói o teu andar atrás de mim e teu olhar carregado de teu gosto escroto. me dói essa tua superioridade que tu crias procurando uma grandeza superficial.

30 temores

o que sou senão um pedaço de carne para ti? tu me explora, tu me abusa, tu me envergonha, tu me deplora, tu me xingas, tu me bates, tu me maltrata, tu me mente e  dilacera meu psicológico. tu me feres. tu me angustia tu me desespera, tu me afoga, tu me humilha,  tu me agride, tu me grita tu me usa  e me devora, deixa marcas em meu rosto, em meus braços, em minha fragilidade,  em minha coragem,  em minha inocência. tu agride meu feminino e com isso se faz dono de si.  tu. tu és essa doença que adentra minhas entranhas, esse repúdio e vergonha, tu não és um bicho, nem doente, tu és um homem, me aprisiona e me oprime. tu. 30.
eu não faço por mal, eu só sou triste.

não pergunte-me, devore-me

se perguntarem de onde eu vim, não saberei responder, porque em lugar nenhum moro. se perguntarem onde durmo, já não sei, porque é a insônia que me atormenta todas as noites. se perguntarem o que eu quero, não darei respostas, porque sou uma canibal do mundo inteiro. se perguntarem qual é minha paixão, não irei saber, porque a paixão está sempre comigo, sou apaixonada pelo cotidiano ligeiro e pelo universo, por todas as pessoas e desconhecidos. se perguntarem qual o meu sonho, não direi, porque meus sonhos são as realizações do agora e minha utopia é efêmera. se perguntarem minha idade, não saberei, porque sou eterna. se perguntarem meu nome, direi que ele é revestido de versos, e seu eco é de poesia gritando. agora, se perguntarem quem eu sou,  os deixarei na dúvida, porque sou eu essa poesia que acalenta, que debate e se agustia, que ri e se desespera. sou uma poeta menor.
silêncio taciturno metade agudo metade mudo. difuso.

teatro

noturna e grave, cena e atriz, destemida e imperfeita, poeta e crua. ânsia e impulso. sonora e nula, pouca e trágica, comédia. sou esse teatro e sou eterna.
sou sentimentalismo barato.

confusão

quando eu for já não ei de ser porque o meu eu já não será mais e o meu ser desaparecerá, deixando algum rastro de nada. viro poeira estelar.
sou caos, paranoia e temporal. dilúvio de impulsos e impasses. Sobrecarga de insônia e paixões. o que sobra é carne.

menino bonito

teu olhar chega em mim sem pedir permissão. jeito manso assim, arranca meu fôlego e me deixa em estado de dormência.

nota sobre os dias

lá fora o dia corre aqui dentro o dia escorre a fadiga que é existir engoliu o cotidiano 

nota sobre f

desenhei tua alma em forma de saudade.

elas e eu

sou bela, sou recatada e sou da luta. tenho um coração colorido e uma alma transsexual. tenho um discurso projetado na ponta do lápis. a poesia me fez dona de mim, meu corpo é meu, e minha vontade é apenas problema meu. só sou quando sou minha, só sou quando rio, só sou quando sou todas elas, só sou quando estamos juntas, só sou quando me faço poesia, só sou quando a poesia me faz. sou bela, sou recatada e sou minha.

efêmero

o tempo cabe num porta retrato, emoldurando minha tristeza em saber que tempo não é nada mais que um descompasso.
quero te arrastar pro meu caos

meu temor

o meu medo tem nome e voz. o meu medo tem rosto e mãos. o meu medo tem um corpo. o meu medo vive nos becos e ruas. o meu medo está na minha família. o meu medo está nos olhares, nos mísseis, na censura, nas fardas, nos livros, na história, o meu medo tem nome. o meu medo usa gravata e terno, chora e é silenciado. o meu medo é transmitido na novela das nove.

mulher

este poema é dedicado ao teu suor, este poema é dedicado ao teu choro, este poema é dedicado ao teu corpo, este poema é dedicado ao teus filhos e filhas, este poema é dedicado ao teu sangue vestido de glória.  este poema é dedicado a tuas tranças que são revestidas de dor este poema é dedicado à tua poesia, este poema é dedicado ao  teu medo, este poema é dedicado à tua canção, este poema é dedicado à tua flor, este poema é dedicado ao teu trabalho, ao teu sorriso, ao  teu sexo, à tua ternura,  ao teu grito, ao teu lamento. este poema é dedicado a tuas mãos que carregam tanto pesar.  este poema é dedicado ao teu silêncio sufocado por uma sociedade opressora.  este poema é dedicado ao teu feminino. este poema é dedicado à nossa união, história, nossa luta e revolução. 

NOTA SOBRE O DISTRAIR

Sou um ser distraído, minha fraqueza é não me observar o bastante. Acho que existo entre um universo desastroso e uma paranoia arquitetada. Sou isso, enfim: um desassossego.

ALGUM VESTÍGIO

Somos aquilo que percebemos em nós. Somos um instante de lucidez que se vai com o vento do existir.

UM INVERNO INTERNO

Quando me ponho a falar de mim, falo de partes, detalhes, retalhos e meios, procurando me dar um próprio significado, para chegar à alguma conclusão ou ao nada. Algum nada. Sou uma poeta menor, sou um espaço entre entrelinhas e utopia. Sou essa divagação em forma de verso e um soneto de inverno.

AMARELO

Meu coração é um ninho de sonhos, meus olhos orbitam tua confusão, somos um Jardim separado. Vamos amanhecer nossos dias.

AUSÊNCIA

Tenho agrado pelas inutilidades cotidianas, minha fadiga é sonhar demasiado, sou arquiteta de minha solidão. O meu abismo é não saber estar.

PINTURA

Minha tristeza é obra de arte,     é poesia feita. É obra de poeta.
Minha poesia é o pranto do sonhar
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Eu gosto de observar os rostos em silêncio. Eu gosto de observar as minuciosidades.

SILÊNCIO

Me fiz invisível para caber nos dias, para caber nas ruas. Eu sofro de desajuste existencial.

insensatez

a gente só precisa de loucura no inconsciente, do surreal na ponta dos olhos. a gente só precisa de um instante de desvario. 

DO AMOR

Eu quero ser como você. Quero sua delicadeza, suas mãos cansadas e seu desespero ao arrumar as coisas pequenas. Quero ter seus cabelos que o vento não consegue alcançar por inteiro. Quero seus pés que carregam o chão sujo da opressão, quero te proteger da opressão de viver. Quero teus dedos que costuraram meu sonhos mais ternos. Quero teus joelhos e pulsos. Quero sentir teu cansaço de ser mãe e pai, ausência e presença. Quero tua fadiga e teus olhos. Quero morar na tua epiderme, fazer chover nas tuas feridas, quero abrigar tua alma ligeira.

GESTO MUDO

O silêncio se projeta em meu olhar como a paisagem     num retrato velho e esquecido, levemente caído na sala de jantar, esperando a poeira. O que há em mim é sobretudo o silêncio. Sou a fotografia do silêncio, a cena,    o gesto.

DO COTIDIANO

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Da vida amena, do aperto, da correria, do barulho, dos deslizes, do riso, do choro, da desordem, dos olhares avulsos. Do cotidiano.
De quantos poros de poesia tua pele é formada?

PERTO LÁ

Tua inexistência em mim dói. Eu ainda carrego tuas mãos e o teu olhar beirando à loucura. Teu calor causou em minha pele um alvorecer. Teus cabelos foram como as plantas que eu não consigo cuidar. Tua cor se perdeu na minha, teu beijo se descobriu no meu e teu riso foi gargalhada em tumulto. Sinto ânsia de teus pulmões outra vez. Tua falta me afeta.

LÚCIDA

Eu criei uma forma de morrer que é só minha. Eu formei crateras onde minha alma tomava forma. Em um instante de lucidez o meu desajuste acorda. Eu criei uma forma de morrer que é só minha. Escrevi calamidades nas paredes do meu ser. Muros. De quantos muros podemos ser feitos? De quantas realidades nossos sonhos se bastam? De quantos sonhos a realidade é feita?

SEM FORMA

A minha poesia nasce todos os dias, a minha poesia devora, a minha poesia não dorme, a minha poesia acorda, a minha poesia chama, a minha poesia esperneia, a minha poesia tem fome, a minha poesia é doença. A minha poesia é surda, a minha poesia é cega, a minha poesia congela. A minha poesia anda descalça a minha poesia é floresta.

SOCORRO

A poesia não reclama. Ela está gritando. As palavras brigam com o inconsciente. falta papel, falta poeta. Procura-se uma poeta de escrivaninha.
Eu sofro de insônia sentimental.

FIOS E CABOS

Neste edifício a chuva não cessa, o sonho é um retrato que não me veste. A utopia está escassa, faltando qualquer coisa. Neste edifício as janelas não cabem a paisagem, os olhares não cabem a paisagem. É tudo sombra, real. A realidade me foge, tornando-se sombra aniquilada.

DEIXEI MEU SILÊNCIO ECOAR PELOS BECOS

Essa gente toda gritando suas pupilas, dançando caras perdidas sob um céu em cores amordaçadas, essa gente cantando uma dança sem tempo... Pernas, braços, bocas. É tudo muito rápido, o meu silêncio é muito turvo, o odor é muito fútil. Um emaranhado de egos enforcados em seus próprios pulmões cinzas. Câncer social.

VAGO

Eu não quero ter. Ser, ser, ser. Eu tenho um medo que não cabe, medo de não ser inteira. Tenho vestígios de escândalos em minha pele. Escândalos silenciados. O desespero cabe em um metro quadrado?

FEMME QUI DORT

Você acorda. devido a luz que passa pela janela. Você já não usa despertador. Você abre os olhos, você não se levanta, você permanece deitada. Você permanece. imóvel. Você olha o chão, os livros que não leu, os filmes que não viu, o espelho vermelho, o par de meias pendurados na janela, pingando. Você acorda. você levanta, caminha, sem sentir. Você ferve o leite. Em uma caneca, despeja o leite com um pouco de nescafé e açúcar. Mas você não sente fome. você vai pro banheiro, tão pequeno que mal cabem suas pernas. Você permanece embaixo do chuveiro, sem ligar, você não se banha. Apenas escova os dentes. Você organiza suas roupas, meias e sapatos, minuciosamente, observando as cores. A organização não te afeta. Você se deixa observar, a televisão, desligada, refletindo seu rosto, você é indiferente à beleza, à feiura, a seu rosto, mãos. Você se deixa observar, o relógio, pequeno como o tempo. Você se deixa observar, as fotografias de seus pais, pendur...

PIGEONS

Eu percebi que tua urgência me afeta. São 02:42, eu ouço o esquadrão dos pombos suicidas e o escorrer da chuva. Teus caos não tem ordem, teu corpo é desorganizado. Tua alma dilacera tua carne e sangra. Eu queria fotografar teu silêncio e descansar em teu fardo. Eu queria viver em tua metamorfose de ser, tua metamorfose de existir. É puro. É sereno.

ATRIZ

Estou cansada sobretudo do espelho, do cansaço, dos jornais, da novela. Dessa atuação vestida. Cena, cena, cena, cena. Minha comédia é uma tragédia.

LAUDO MÉDICO

O corpo, despido quando examinado, mede 1,70m e pesa uma morte que é só sua. O cabelo, da cor do caos, escorre pela cintura. Os olhos levam temor. Dedos compridos e pálidos, estão fracos por não saber. Tem face de dor. Estado: em loucura interna.

NOVO

É bonito porque é tumulto, é bonito porque é invisível, é bonito porque chora, é bonito porque é vazio, é bonito porque correm, é bonito porque escondem-se e fogem. É triste. Eles procuram se procuram. Acham. Mas é uma mentira. Beijam-se.

LA BALLON ROUGE

Voa e paira. Faz transparecer minha inocência e o vermelho toca. Seus olhos voam em busca do balão. Tornam-se uma só alma.  Porque é de uma inocência que desperta a alma.  Um quadro minucioso que cabe numa cena do sonhar. O balão vermelho.