Mastiga todo o teu verme e bebe o teu pudor. Engole tua mesquinhez e digere tua banalidade. Faz do teu caos uma janta e sente o sabor da loucura. Devora-te. Engole e saboreia os teus últimos instantes de lucidez.
Há muita luz deste lado. Há muita cor deste lado. Há muita dor deste lado. Há muitos eus deste lado. Há minha alma deste lado. Há muita dança deste lado. Há muito sol deste lado. Há a chuva deste lado. Deste lado há o vazio o meu vazio fica deste lado. O lado sou eu por inteiro e me faço no lado do acabado.
Em minha cidade existe um lugar que é florido até as entranhas, e é neste lugar que o meu coração floresce. Ah, cidade minha... Quem dera minha alma ser dona desta paisagem. E você que é tão bonita, torna-se invisível. Invisível aos olhos que nada vê.
Não sei do que sei. O que sei eu? Eu sei dos desajustados, dos desavisados, que sabem o que não sei. Sei dos poetas que sabem tudo o que deixo de ser. Sei do que não sei e sou o que sei.
e u crio uma canção e me faço balão e na decomposição eu saio do chão te pego pela mão pra te levar na contra-mão e na contradição que é o meu coração.
Sou desses seres que se fantasiam grama, sou dos seres que se ditam formigas, faço parte dos seres que se imaginam peixes. Sou desses passos que ninguém repara. Sou. Sou aqueles domingos poéticos e vazios. Sou a dor agonizante que não tem socorro. Sou aquela metrópole onde as solidões sambam com o ritmo da multidão. Sou os gritos famintos por misericórdia. Eu sou o lirismo escondido no bolso do peito.
Na casa onde morei havia bananeiras e risos. Na casa onde morei, a tensão pairava nas paredes. Na casa onde morei, as janelas serviam de retrato. Na casa onde morei a ausência tomava forma. Na casa onde morei os desenhos escondiam-se em baús. Na casa onde morei existiu um quintal redondo. Na casa onde moro a saudade perdura-se em álbuns e pinturas. Na infância em que morei o jardim espantava os fantasmas e transformava lágrimas em chuva.
A manhã reluz todo o dia. Como é formosa em sua claridade. A manhã. A manhã nos diz o que a noite esconde. É pela manhã que os pássaros se fantasiam de rosas e as árvores se encarnam em jardins. Bonita a manhã. Queria te desvendar mas só te ouço pela janela e sussurras tão baixo... Como é bela e misteriosa a manhã.
Eu danço como quem está em declínio, eu danço como as crianças desmioladas. Eu danço igual ao sol vestindo o céu com seu amarelo infinito, eu danço a dança dos românticos! Quem dera ser a tal amada... E no rodopio eu me embalo na solidão. E danço, danço sempre. Danço com os poetas, danço pelos poetas. Danço! Mas sempre dançando, num ritmo frenético, ritmo amarelo, ritmo de samba, ritmo eterno. Tentando ser bailarina do meu eu.