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a persistência da memória

quando eu olho pra trás e lembro de mim, em como eu era, eu sinto uma dor que não é explicável. dor de não poder amparar a solidão e tristeza que me preenchia, dor de não poder mais acolher aquele ser tão ingênuo e puro que sonhava em demasiado e sentia tanta sensibilidade e sentia tanto, por tudo. eu sinto muito por não ter feito o bastante por ti, por mim. e hoje eu beiro à uma idade que tudo é tão rápido, as pessoas, as coisas, os pensamentos e emoções que qualquer sentimento que eu encontro eu o acolho como se estivesse acolhendo a mim mesma. eu me resgato nos outros sem receber nada além de um adeus. eu me procuro nos lugares e esqueço de olhar além de mim. .
eu já não consigo me ajudar mais.
há um medo dentro da gente que corrompe tudo.
são tempos difíceis para os que sentem demais.
como o cineasta claude miller um dia falou: "eu filmo porque quero ser amado", acho que escrevo porque quero ser amada também, mas ao contrário do miller, quero ser amada por mim mesma, não só pelos que me leem. 
a dor é apenas um cisco nos olhos da vida. arde e vai embora.
viver em desalinho e amar a intensidade dos amores efêmeros. sentir a solidão das noites amargas em que o vento é um acorde passional. se encolher sozinha à noite com um peso que é só teu. e assim, amanhecer para mais um bater de pálpebras.
lembra-te a ti mesmo que a dor é um peso que passa com a névoa do tempo. e que esse vazio corrói e devora, mas que há sempre uma direção neste arrastar de suspiros.

um pedido de socorro interno: abismo de mim para mim

eu sinto tanto medo e tanta angústia que nenhum abraço mais me acalma. eu quero gritar um mundo mas eu nunca ouço esse retorno desesperador.  dói. dói tanto sentir muito e se ver perdida nesse turbilhão de gente. dói, corta, espanca.  e esse choro parece querer me lavar de todas as impurezas que eu procuro em vão, porque minha sede de amor me leva a um abismo existencial em que nunca sobra ninguém. quando eu vejo, já amanheceu e você já não está mais aqui. vocês. o mundo todo.  eu quero me salvar de mim antes que eu apodreça, porque esse cansaço, ele me mata todos os dias.  perdão, mas a sensibilidade é pesada demais pra minha realidade. perdão. 
não dá pra isolar a solidão de uma parte do corpo, é como um câncer que se apodera de todo o seu organismo. ela emana tudo. e dói.
há em mim essa inquietude sentimental, a imprevisibilidade do meu sentir são como as ondas do mar que nunca tem um ritmo. e eu amo essa urgência.

aquarela racial

preto. branco. amarelo. do que importa tua raça se teu sangue é vermelho? nele reluz tudo o que tu poderás ser e aquilo que tu te transformarás. a obra de arte que é o ser humano ultrapassa os limites do preconceito. faz do teu conceito teu lar e vive a raça que emerge no teu ser. engrandece no teu peito a voraz essência que é se deixar descobrir nesse mundo multicor.
um instante é o efêmero que reluz

para você que tem um grito no olhar

você é lindo. é lindo como o azul que mora em ti.    mas o tempo leva tudo. e esse tempo que te levou pra longe foi suficiente para criar um pedaço de ti em meu eu. parece exagero. mas somos um exagero num mundo corrido,                  num mundo de pessoas ligeiras onde tudo se aglomera. ao estar perto de ti e ao sentir aquela ausência que doeu, eu percebi o quão vulnerável sou a detalhes. e essa coisa que eu tenho, que a gente tem em despejar a solidão num outro ser, é corrosiva e cansa. tu foi bonito em mim mas se foi. e eu sorrio ao lembrar da tua pele na minha.
é cansativo sentir muito num mundo de pessoas rasas. quando eu olho o mar, eu sinto o mar, eu vivo as ondas e respiro a areia.  se eu te beijo e toco tua pele, nela eu me fragmento e me sinto viva por um milésimo de tempo que eu tenho e guardo para você.  mas esse vazio,  esse vazio que eu sinto nas coisas e que é tateável,  ele desdobra tudo o que há de bonito e intenso que eu crio.  eu fecho os olhos e sinto esse vestígio se esvaziando do meu peito; eu choro.  sinto a água sobre minhas mãos e não é possível conter o tempo que vai, o tempo que leva o mar de mim; que vai te levar de mim.  eu sinto tanto que meu corpo já não consegue me conter. 
cansaço batendo na porta da realidade.
eu escrevo com o que tenho, algo fragmentado em meu ser com um aglomerado de sentimentos abafados. um corte de sensibilidade capturado na emoção do momento. um lampejo de surto com a claridade do amar. uma fuga do real beirando à insanidade.
do que me sobrou resta esse corpo materializado na essência   do vivo vivo no transtorno do agora transcendendo a lucidez derrapando na insensatez.
o acaso é o destino que coube a mim.

exílio

a culpa que eu sinto cabe o mundo. o medo que eu tenho de ser algo me sobrepõe a um                             estado de inutilidade e fragilidade, deixando meu eu a mercê do caos existencial. o que me mata é a sensibilidade arrastada pelo corpo fraco. eu sinto em demasia e não quero enxergar, esse sentir me deixa mais sozinha do que nunca.