MARIAS
Eu tenho um muro
que abrange as miudezas que
as mulheres carregam.
Eu tenho um corpo que veste a dor bordada de minha mãe
e cabelos carregados de fios embaralhados de sangue
angústia
temor.
Eu tenho um grito fincado
nos becos
desertos de minha garganta
e cicatrizes surradas de
pesar.
Eu tenho um filho único
assassinado
por uma liberdade oprimida
e um socorro engasgado na língua.
Eu tenho.
Eu sou.
Eu sou a mulher que madruga
à procura
de uma lavanderia para enxugar suas lamentações
e lavar a angústia que é ter que existir.
Eu sou o samba engastalhado nos calos
cotidianos e sou o cansaço das mãos maternas.
Eu sou a beleza no sorriso do empoderamento
feminino e sou a fala da mulher que clama por glória.
Eu sou a multiplicidade e a verdade,
a igualdade e autonomia.
Sou o verde do florir
e o azul do voar.
Sou a Maria,
Maria cotidiana e caótica,
sou Maria trabalhadora e a Maria da luta.
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