FEMME QUI DORT

Você acorda.
devido a luz que passa pela janela.
Você já não usa despertador.
Você abre os olhos,
você não se levanta,
você permanece deitada.
Você permanece.
imóvel.
Você olha o chão,
os livros que não leu,
os filmes que não viu,
o espelho vermelho,
o par de meias pendurados na janela,
pingando.
Você acorda.
você levanta,
caminha, sem sentir.
Você ferve o leite.
Em uma caneca, despeja o leite com um pouco de nescafé e açúcar.
Mas você não sente fome.
você vai pro banheiro,
tão pequeno que mal cabem suas pernas.
Você permanece embaixo do chuveiro,
sem ligar,
você não se banha.
Apenas escova os dentes.
Você organiza suas roupas, meias e sapatos,
minuciosamente,
observando as cores.
A organização não te afeta.
Você se deixa observar,
a televisão, desligada, refletindo seu rosto,
você é indiferente à beleza,
à feiura,
a seu rosto, mãos.
Você se deixa observar,
o relógio, pequeno como o tempo.
Você se deixa observar,
as fotografias de seus pais, penduradas na parede amarelada.
Você não se observa.
O tempo te observa.
Você fica na cama, imóvel, observando o chão,
o par de meias, a fechadura.
Essa cena mal cabe em um retrato.
Você sente a dor chegar,
em seus dedos, no corte que o ventilador te causou.
Você é indiferente à dor.
A indiferença chega até você,
suavemente, até te causar infelicidade.
Você vai descer as escadas,
você não sente vontades,
de andar, correr, ler, conversar.
Você se sente incapaz,
você sobrevive.
Você desespera-se,
Você ri.
Você espera,
que o espelho te reflete,
que a chuva caia,
que o calor se desintegre,
que as meias parem de pingar,
que o café esfrie,
que as cartas cheguem,
que as cartas existam,
que o papel exista,
que a escritura exista.
Você espera.
o apodrecer,
o viver,
o ler, o ver, o gritar.

tua consciência espera um vestígio de verdade.

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