a poesia fala

eu, caros leitores,
sou faminta por audácia e ousadia,
defronte de mim existem
ânsia e desejos.
eu sou a carne que o poeta
insaciável procura para devorar.
quando ouvem meu nome, não só
causo encantamento nos ouvidos alheios,
como perturbo a alma e o pensamento dos,
se me permites dizer, tristes e desamparados.
os tristes de que falo, são os
engravatados que não perdem seu precioso tempo
com tolices poéticas,
ocupados demais ministrando seus belos cargos
de gabinetes.
eu estou aqui a falar, como a loucura
fala nos devaneios de Erasmo.
me ponho em teus olhos chegando até teu faro
amistoso de poeta.
quando eu finalmente, alcanço os que me desconhecem,
eu os trato tão servilmente e amavelmente como os
cães tratam seus respeitosos donos.
os levo inspiração como o fotografia leva
ao seu fotógrafo.
o que é, os abraços voluptuosos e os beijos mais ardentes,
senão poesia concentrando-se em corpos ardosos e urgentes?
eu rodeio pelo mundo como o vento que faz
rodopiar as folhas leves das mais belas árvores!
sou eu as cenas de amor e calor nos filmes,
causando estrecimento nas pálpebras
dos expectadores.
sou eu o Prelude do Bach
e os sonetos do Moraes.
sou eu, caros amigos, que te fazes sucumbir
aos deleites da escrita, ao encanto do tentar, aos poucos,
desfrutar da arte, da valsa que é
afundar-se nos passos gracejantes dos versos.

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