grito de revolta e descaso total
faz não sei quantos dias que eu to trancafiada dentro de casa com a presença única dos meus pensamentos e da reviravolta da minha gata pelos cantos desse kitnet. tem dias que acordo sei sem saber que dia é, já acordei sem saber até se eu tava mesmo em casa, às vezes só sei discernir que é quinta-feira porque entro em alguma rede social e vejo alguém postando tbt. as merdas das paralisias de sono continuam quase todas as noites, a dor no meu estômago/útero, que depois de 1 ano sem sentir após ter ido no hospital fazer tratamento e ver o resultado de que felizmente eu não tenho endometriose, voltou com força. as dores no peito, que parece ser algo de família, voltou depois de bem uns 2 anos sem senti-las, provavelmente causa das crises de ansiedade que me fazem acordar de madrugada com falta de ar. e sinceramente? às vezes da mesmo é vontade de simplesmente tacar o foda-se para essas vibes positivas que eu vejo no instagram, toda essa ideia de produtividade forçada que muitas blogueiras enfiam na goela dos seus seguidores, essa vida perfeita que muita gente faz parecer estar levando nessa crise séria de pandemia. tem gente morrendo, TEM GENTE MORRENDO TODO OS DIAS, TEM POBRE MORRENDO TODOS OS DIAS. homem trabalhador, mulher trabalhadora, jovens trabalhadores estão precisando sair de casa, com o risco da vida sendo carregado na bolsa, todos os dias pra poder botar comida dentro de casa porque os 600 reais prometidos pelo governo não é capaz de sustentar sozinho uma família. porque os 600 reais pra botar comida na boca de muita gente ainda diz que precisa ser analisado enquanto do outro lado do muro tem pessoas gastando esse dinheiro com futilidade e achando que postagem em rede social pode te deixar mais cool. ontem no telejornal eu vi uma senhora chorando e perguntando se esse aplicativo funciona mesmo, se ta quebrado ou algo do tipo, porque toda vez que ela abre, só vê essa palavra análise e análise. e que precisa sair pra trabalhar mesmo com medo porque precisa botar comida dentro de casa: "eu moro sozinha, mas eu também preciso me alimentar, né?". tem gente de verdade morrendo todos os dias, e não dá pra olhar pra isso e conseguir ficar bem, se manter sã nessa quarentena. podemos tentar, por um dia, uma semana, manter a produtividade, conseguir formar uma rotina boa que ajude o psicológico a lidar com tudo, mas é realmente complicado, de todas as formas. eu converso com minha mãe, uma mulher guerreira, que não completou o ensino médio, que é doméstica e não entende muita coisa desse mundo, e vejo o reflexo de milhões de outras mães trabalhadoras que olham pra todo esse caos e não conseguem entender o que tá acontecendo. que ouvem as palavras de um homem que não sabe o que é empatia, e leva aquilo como uma verdade pra elas, e às vezes essas mulheres não tem ninguém pra mostrar a realidade, a realidade dos fatos. e eu não as culpo, eu não culpo minha mãe. porque a realidade da padeira é diferente da realidade de muita gente. e é tudo sobre empatia. sobre ter a ciência de que a minha vida é tão importante quanto a vida da padeira que eu não conheço, do estudante que eu não conheço, da trabalhadora que eu não conheço, das pessoas que eu nunca vi. a gente vê dados todos os dias, dados que nem sempre são a realidade de agora, e são números, número altos e muita gente não sabe o que fazer com eles. chegamos a um ponto em que as pessoas olham pros número e não veem mais nada, porque todo esse caos já mastigou muita coisa. às vezes não sei se é só um estado total de desânimo em que as pessoas não estão mais sabendo lidar com nada e reagem dessa forma, ou se simplesmente é egoísmo puro. e pode ser os dois.
eu tentei e demorei pra jogar essas palavras mais pesadas aqui, com uma ideia besta de não negatividade, de pensar que tudo isso veio pra mostrar que o ser humano tem uma coisa boa dentro de si, que autoconhecimento viria disso tudo, que depois de todo esse caos, as pessoas iriam cuidar das coisas a sua volta com mais ternura e empatia. do futuro, eu não sei, mas do que vejo agora, eu vejo que isso também mostrou o que de pior o ser humano pode ter, o egoísmo e a falta de empatia com a natureza. mas ao mesmo tempo de tudo isso, o que vem me deixando forte pra lidar, é saber que tem muita gente que faz todas essas coisas ruins jogadas aqui não serem de todo verdade. porque em meio a todo esse caos, essa angústia nos revelou o pior do ser humano mas também o melhor que pode existir dentro de alguns.
enfim, parei o texto pensando que queria jogar mais coisa depois, mas por enquanto é so isso.
enfim, parei o texto pensando que queria jogar mais coisa depois, mas por enquanto é so isso.
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