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o precipício é interno.

sem freio, transparente

talvez eu não veja as coisas do jeito que eu as via antes e talvez minha carcaça esteja apodrecendo em sentidos que eu mesma não entenda e não consiga alcançar.  minha memória me sabota, não consigo mais entender esses erros e ta borrado. eu temo esse branco que fica rondando minha mente, desvia minha atenção e eu sinto angústia de grito. consigo sentir na carne essa fraqueza quando vejo o reflexo e as sombras no espelho. eu to afundando, deixando a vida correr e não ajudando. eu não me sentia assim tão fraca e alheia, não sentia tanto esse nada, essa indiferença de vontades. não era tudo tão insosso, o gosto não estava amargando, minhas mãos não eram assim tão trêmulas e frias. e o tempo passa, não quero ficar, ele passa, não pausa e leva, na correria grave dos dias.
um corpo sem face, com olhos profundos escancarando minha mente à noite em um sonho lúcido. presença corriqueira que me fita e um passado ali guardado: me perdi. desconheço? mas és tu, ana, que desconheço.
no precipício de uma mente sem limites certos, eu carrego o silêncio que pesa com a crise que chega com a carga levando 20. pesa a leveza. 
olhar grave e perdido de quem não sabe e nem quer saber mais. mistérios escondidos num olhar atento e fugaz. num beco à meia luz eu te vi, no meio do alvoroço e desordem. mãos fundas que eu não sei o que levam e o que desejam e um andar ligeiro que se deixa ir.  corpo que anda e come, que quer, sem medos e com impulsos, se joga.  corpo que arrepia. 

tem coisas que te engolem

às vezes eu fico pensando em como determinadas coisas podem  te engolir de diferentes formas. as palavras me engolem em sentidos banais,  que eu nem sempre entendo, mas me deixo ser engolida por cada letra, sílaba, acento, frase e contexto ou talvez nem isso. eu só vou me engolindo nelas, me fazendo aos pouquinhos sem saber o fundo. o céu engole a gente todos os dias e nem nos damos conta desse azul imenso que rodeia nossas cabeças. ele engole nuvem, avião, pipa e pássaro e nisso tudo  somos só um bando de formigas perdidas na terra.  a gente engole umas comidas sem digeri-las direito, isso funciona também com as pessoas e os pensamentos. saímos devorando algumas coisas sem pensar na digestão, se aquilo pode nos adoecer ou  nos dar mais fibra. tem cenas que a gente quer ficar engolindo sempre, pra tentar não esquecer. tem os detalhes, que a gente vai engolindo aos poucos, pra ficar se fazendo nos pedacinhos deles....
essa dor ainda vai perdurar muito