o gosto sereno do que ficou
é preciso descansar dos devaneios e angústias que entram sem pedir licença e sem freio na casa dos vinte. tenho pensado ultimamente na carência que insisto em alimentar, na carne que anseio, nos arrepios que levo da vida e das pessoas, nos toques e conversas que quero viver. solidão é dura e insossa igual uma carne jogada no meio das moscas no quintal, derramada junto com o feijão podre. me cego e atropelo o que me vem na frente, sem freio, sem parar e analisar as mil problemáticas e inseguranças que podem estar escondidas querendo sair ou ficar. não é justo forçar esse entendimento, não é justo pro nosso interior, nem pra nossa pele, nem pro crescimento que vem brotando. essas turbulências pioram com a idade, pioram com as perdas, com a saudade, pioram com as pegadas e a vida carregada nas costas. as angústias tendem a pesar ainda mais, porque o solo é cruel pra quem não nasceu num gramado verde. sigo olhando pras minhas pegadas e pra terra que hoje me fecunda e sinto o gosto da lama que ainda se arrasta e mela meus pés, sinto a energia do meu corpo pequeno que corria em busca de grito e respostas e sinto o calor do sol esquentando a calçada e o batente no meio do dia. sinto as mãos serenas que me tocavam e sinto a rede que me jogava pro alto. sinto todo esse passado presente misturado com uma angústia de futuro e busco uma paz de criança curiosa pelo mundo.
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